Locução: Menos é mais.

Abril 1, 2009

Locutor: – É isso aí, gente! Agora são 10 horas e 30 minutinhos, manhã de sol de quarta-feira. E agora vamos bater aquele papo gostoso. Alô?

Ouvinte: – Alô?

Locutor: – Quem está falando?

Ouvinte: - Maria do Socorro.

Locutor: - Olá, Maria do Socorro, e você está falando de onde?

Ouvinte: - Do centro.

Locutor: - Do centro, é? E você está no trabalho?

Ouvinte: - Sim. Sou secretária.

Locutor: - Secretária?

Ouvinte: - Isso, da RM Contabilidade.

Locutor: - Beleza então, Maria do Socorro, então eu mando um abraço à todos aí da RM Contabilidade, tá?

Ouvinte: - Obrigada.

Locutor: - E vai pedir alguma música, Maria do Socorro?

Ouvinte: - Vou sim, quero ouvir a nova do Daniel.

Locutor:- A nova do Daniel? “Eu quero amar você”?

Ouvinte: - Isso mesmo.

Locutor: - Que maravilha, Maria. E vai mandar a música do Daniel pra quem?

Ouvinte: -  Para o meu namorado, bla, bla, bla, bla…

Locutor: - Taí a sua música, e continue sempre na sintonia, tá bom?

Ouvinte: - OK.

Locutor: - Beleza. E agora vamos de Daniel – Eu quero amar você! Um bom diaaaaaa!

Quantas vezes você presenciou o diálogo acima? Eu perdi a conta! Trata-se uma uma quilométrica participação de ouvinte em que todos saem perdendo. Pelos meus cálculos, a conversa durou mais de 70 segundos.  Vamos analisar todo o diálogo frase a frase.

Locutor: – É isso aí, gente! Agora são 10 horas e 30 minutinhos, manhã de sol de quarta-feira. E agora vamos bater aquele papo gostoso. Alô?

- “É isso aí, gente?” O que isso significa? NADA! Isso chama-se MULETA. É um vício que deve ser eliminado ou pelo menos reduzido ao mínimo. “Beleza?”,”Pois é!”, “Taí” entre outros se encaixam nessa categoria. Isso enfeia a sua locução e não acrescenta nenhuma informação útil ao seu ouvinte.

- 10 horas e 30 MINUTINHOS ou 10 horas MAIS 30 minutos está errado! Não é assim que você responde às horas à alguem, certo? É 10 e 30 ou 10 horas e 30 minutos. Acabou. A locução deve ser algo natural, então diga as horas como todos o fazem no dia a dia.

- “Manhã de sol de quarta-feira”? Locutor não é meteorologista. Pode fazer sol na rua da rádio e estar chovendo em um barro distante. Lembre-se que você fala com todos os ouvintes.

- E o “vamos bater um papo gostoso”? Existe algo pior do que isso? A frase, além de desnecessária, incita as pessoas a mudar de estação. Ouvinte quer ouvir música, não perder tempo com “papo gostoso”.

Ouvinte: – Alô?

Locutor: – Quem está falando?

Ouvinte: - Maria do Socorro.

Locutor: - Olá, Maria do Socorro, e você está falando de onde?

Ouvinte: - Do centro.

- Aqui notamos a completa falta de informação do locutor à respeito do ouvinte. Muitos radialistas abrem a participação do ouvinte sem ter a mínima idéia de quem está do outro lado. Infelizmente é praticamente uma regra. Vejam a perda de tempo: 5 intervenções só para saber que a Maria do Socorro está no centro da cidade!

Locutor: - Do centro, é? E você está no trabalho?

Ouvinte: - Sim. Sou secretária.

Locutor: - Secretária?

- Mais um vício de locução. O famoso ECO.

“Estou no centro”. – “No centro, é?”.

” Sou secretária”. -” Secretária?”.

Porque repetir? É desagradável conversar com alguém que repete sempre a sua última palavra, não acha? Imagine ouvir no rádio! Ninguém precisa saber uma informação duas vezes, ainda mais se for irrelevante.

Ouvinte: - Isso, da RM Contabilidade.

Locutor: - Beleza então, Maria do Socorro, então eu mando um abraço à todos aí da RM Contabilidade, tá?

Ouvinte: - Obrigada.

De vez em quando isso acontece. O ouvinte diz aonde trabalha. Péssimo. Primeiro porque dá a impressão que a secretária da RM Contabilidade não trabalha, fica ligando para a rádio pedindo música. É ruim para a RM e para a ouvinte. Segundo, se a rádio tiver um anunciante da área de contabilidade vai ficar “super feliz” com a publicidade gratuita da sua concorrente. É ruim para a sua rádio. Terceiro, a emissora não ganhou um centavo com a divulgação. É ruim para as vendas. E quarto, o locutor ainda corre o risco de ficar com fama de jabazeiro.“Vai ver que ele está ganhando um por fora!” Já pensou nisso? É ruim para a credibilidade do locutor.

Locutor: - E vai pedir alguma música, Maria do Socorro?

Ouvinte: - Vou sim, quero ouvir a nova do Daniel.

Locutor:- A nova do Daniel? “Eu quero amar você”?

Ouvinte: - Isso mesmo.

- Se a ouvinte vai pedir um música? Não, ela ligou para a rádio para encomendar um pizza! Não dá vontade de dizer isso?

- “A nova do Daniel?” Olha o locutor fazendo eco de novo.

Locutor: - Que maravilha, Maria. E vai mandar a música do Daniel pra quem?

Ouvinte: -  Para o meu namorado, bla, bla, bla, bla…

Locutor: - Taí a sua música, e continue sempre na sintonia, tá bom?

Ouvinte: - OK.

Locutor: - Beleza. E agora vamos de Daniel – Eu quero amar você! Um bom diaaaaaa!

- “Que maravilha” e “Beleza” = Muleta.

- “Taí a sua música . Continue na sintonia, tá bom?” Outra frase descenessária.

- E para concluir: Vocês sabem qual o nome da rádio? Não é impressionante? Um diálogo de mais de um minuto e não sabemos qual emissora estamos. Sim, isso é muito comum.

Resultado: Participações longas limitam o número de ouvintes no ar. Apenas 3 intervenções como essa em uma hora, além de chatas, substituem uma música inteira.

Porque não fazer assim?

Locutor: - Rádio 108 FM, Sucesso em primeiro lugar! São 10 e 30, e agora eu converso com a Maria do Socorro que está no centro da cidade. Oi, Maria, bom dia!

Ouvinte: - Bom dia!

Locutor: - Que música você quer ouvir?

Ouvinte: - Daniel – Eu quero amar você!

Locutor: - E oferece para quem?

Ouvinte: - Meu namorado, bla, bla, bla, bla…

Depois do oferecimento? Vinheta (mais uma vez localiza o ouvinte na rádio que ele ouve) e música. Só. É rápido, dinâmico e não cansa o ouvinte. Sabe quanto tempo levou? 15 a 20 segundos! Em vez de 3 enormes participações em uma hora, faça 6 ou 7!

Como complemento, leia outro artigo que escrevi sobre participação de ouvintes ao vivo aqui.

———————————————————-

Quer publicar esse artigo? Não esqueça a fonte: http://gabrielpassajou.com

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11 Comments Add your own

  • 1. Amana Câmara  |  Abril 2, 2009 at 7:29 am

    Não pude deixar de rir.

    Responder
  • 2. Reinaldo Lima  |  Abril 3, 2009 at 2:32 pm

    Simples , direto e objetivo , parabéns .

    Uma aula .

    Responder
  • 3. selma  |  Abril 7, 2009 at 2:37 am

    Impressionante q ainda haja gente q precise de um passo-a-passo assim tão detalhado. Pior é q tem, né? Parece mentira….uhauhauhauhauhauha

    Responder
  • 4. Cássio Fernando  |  Abril 10, 2009 at 11:59 am

    No Brasil de uns anos prá cá a coisa da educação , moral e do bom hábito caiu demais , foi rio abaixo e o entretenimento seguiu o mesmo rumo.
    As tv´s e rádios propiciaram isso tbm , passando uma informação barata e altamente descartável e sem a menor classe ou nível intelectual.
    As rádios que ao se popularizem a trôco de audiência fácil e sem muito custo prá estarem no ar , aderiram a programações onde as músicas mandam uma mensagem bastante fútil e sem qualquer categoria.
    Não todas , mas a brutal maioria vive disso..
    Notícias sangrentas , papos sem a menor graça , músicas de conteúdo erótico , que muitas vezes fazem tbm direta apologia a uso de drogas , traições conjugais ,menosprêzo para com as mulheres e tbm algumas que elogiam armas e matanças e algumas encorajando a ser bandido ao invés de mocinho.
    Aí caiu no despenhadeiro a coisa toda.
    Pobres jovens de hoje que estão em meio a essa guerra de interêsse , onde são usados com bucha de canhão na guerra pela grana de algumas gravadoras e jabás para rádios.
    Música é algo mágico , que fala das belezas e da existência humana de maneira digna e não um amontoado de palavras que instigam violência , crimes ou eternas festas regadas a bebida e drogas.
    Nada a ver isso no rádio…Festa e namôro é uma coisa..
    Zona e sexo explícito em público é outra…Não compactuo com essa cultura musical atual e creio que o Brasil caminha na estrada errada na parte musical.
    E é o q mais vende e o q mais toca nas rádios hoje e ainda pior , saber que a maioria gosta e aplaude isso tudo…Que pena !
    Fazer o quê ?
    Um país se faz com homens e livros já disse Monteiro Lobato.
    Mas hj em dia quem dá bola prá isso…?
    Poucos , muito poucos , infelizmente…!
    Feliz e Iluminada Páscoa prá todos os amigos e amigas desta comuna.

    Responder
  • 5. Gabriel Passajou  |  Abril 13, 2009 at 3:12 am

    Selma! Que bom te ver novamente aqui!

    Cássio, vou fazer um post com tua resposta! Corajosa opinião!

    Responder
  • 6. Cássio Fernando  |  Abril 13, 2009 at 11:19 am

    Oi Passajou

    Se achar adequado a teu blog , mete bala..!
    Abç

    Responder
  • 7. paulo rogerio  |  Abril 13, 2009 at 4:04 pm

    como não deixar a agilidade no radio se transformar em frieza e indiferença?… me parece que esse tem sido o grande problema de se utiliazar muitas técnicas locução apresentadas por radialistas do sul do brasil, em rádios populares do norte e nordeste… gostaria de sugerir esse tema para seu proximo artigo.

    Responder
  • 8. Cristiano  |  Abril 19, 2009 at 1:44 am

    Concordo plenamente, só não esqueçamos que é preciso uma produção, se vc tiver um programa, como existem vários por aqui, em que primeiro o locutor larga umas 5 ou 6 participações e após as musicas. Então seria legal ter a produçao feita por outra pessoa. Mas o passo a passo é otimo. Comigo, mas real

    Responder
  • [...] Henrique, locutor da 96 FM de Natal. Ele faz um comentário bem pertinente sobre o meu artigo “Locução: menos é mais”. Lendo o Gabriel, é fácil perceber a intenção do autor: objetividade. É isso que Passajou [...]

    Responder
  • 10. Andréa  |  Junho 3, 2009 at 8:49 pm

    Olá, sou Andréa, locutora no Estado de Santa Catarina. Tive acesso ao blog graças ao Márcio da Clube FM. Valeu garoto!
    Adoro tudo que envolve o universo do rádio. O assunto em questão é bem vindo e tema de uma discussão válida para o crescimento e aprimoramento do profissional de rádio. A objetividade, clareza e concisão no texto e na fala são fundamentais para uma boa comunicação, principalmente, nos dias de hoje, onde a maioria das emissoras de rádio apresentam intervalos comerciais longos deixando a programação artística e musical, reduzidas. Por outro lado, unir a objetividade à simpatia e carisma não é tarefa fácil. Tem locutor que já possui essas qualidades, mas observo que, em muitos, a objetividade acaba sendo um fator negativo. Fica aqui a dica para uma nova discussão……rs. P.S.: Gostei da observação do Paulo Rogério. Bjos a todos.

    Responder
  • 11. selma  |  Junho 15, 2009 at 5:52 pm

    Esqueci de contar! Estou de volta ao ar, de segunda à sexta, das 8 às 11h, na OI FM Rio – nos 102,9mHz da antiga Rádio Cidade :( fazendo o Rádio Café. Produzo e apresento o pgm local. Qdo puder, confira! Ah! E seu blog continua ótimo! Parabéns! Não desista da web, não volte ao lápis e papel como quer o Sr. Ministro, tá?(Ng merece….)Abs

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